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Chico Whitaker, propostas e apuntamentos para o CI do FSM
Chico Whitaker, propostas e apuntamentos para o CI do FSM

Chico Whitaker fixo a finais do pasado ano unha proposta radical, disolver o Consello Internacional do FSM. Velaquí os tres textos nos que explica a súa visión.

ARTIGO 1. Fórum Social Mundial: espaço ou movimento? Pensando o futuro do Conselho Internacional do FSM em novas perspectivas

O Fórum Social Mundial  FSM é um espaço ou um movimento? A opção por um FSM-espaço, subjacente aos princípios da sua Carta, foi sendo discutida cada vez mais claramente à medida que os Fóruns Mundiais se sucederam e foi surgindo o chamado “processo do FSM”,  que compreende a realização, pelo mundo afora, de Fóruns Sociais gerais ou temáticos em vários níveis.

Hoje talvez se possa afirmar que essa opção prevaleceu: os Fóruns Sociais são vistos de forma geral como “espaços abertos” de encontro horizontal – sem portanto dirigentes, porta-vozes ou hierarquizações – de movimentos e organizações da sociedade civil que visam, autonomamente em relação a partidos e governos, a superação do neoliberalismo.

Fórum Social Mundial: espaço ou movimento? Pensando o futuro do Conselho Internacional do FSM em novas perspectivas.

Apesar de sua radicalidade, considero a presente proposta razoável. Espero portanto que ela mereça a atenção dos companheiros do Grupo de Trabalho sobre o Futuro do CI. Chico Whitaker.

O Fórum Social Mundial  FSM é um espaço ou um movimento? A opção por um FSM-espaço, subjacente aos princípios da sua Carta, foi sendo discutida cada vez mais claramente à medida que os Fóruns Mundiais se sucederam e foi surgindo o chamado “processo do FSM”,  que compreende a realização, pelo mundo afora, de Fóruns Sociais gerais ou temáticos em vários níveis.

Hoje talvez se possa afirmar que essa opção prevaleceu: os Fóruns Sociais são vistos de forma geral como “espaços abertos” de encontro horizontal – sem portanto dirigentes, porta-vozes ou hierarquizações – de movimentos e organizações da sociedade civil que visam, autonomamente em relação a partidos e governos, a superação do neoliberalismo.

A invenção desses “espaços” tem por objetivo criar condições para que esses movimentos e organizações possam, por meio de atividades organizadas por eles mesmos, reconhecer-se mutuamente e intercambiar análises e experiências, respeitando sua diversidade, assim como identificar convergências e construir livremente novas alianças e articulações, visando iniciar novas lutas para a construção do “outro mundo possível”.

O caráter não diretivo dos Fóruns Sociais, por sua vez, se afirmou também pela não adoção de “declarações finais” únicas do conjunto de participantes – com a pretensão de unificar em algumas palavras de ordem a extrema diversidade e heterogeneidade de suas lutas – ao mesmo tempo que pela possibilidade de serem feitas tantas “declarações” quantas os participantes dos Fóruns o decidam, para demarcar seus próprios engajamentos.

Trata-se na verdade de uma nova cultura política, cuja construção está em processo e se tornou pouco a pouco outro objetivo especifico dos “espaços” FSM.

Dez anos no entanto se passaram. Muitos novos movimentos ou redes de organizações surgiram a partir dos Fóruns Sociais. Os dados da realidade econômica, social e política do mundo de hoje aumentam a pressão para construir cada vez mais “movimentos” e mesmo um movimento de caráter mundial, que torne mais eficaz a luta pelo “outro mundo”. Alguns “Fóruns Sociais”, embora se estruturem horizontalmente com atividades auto-organizadas, não resistem à pressão por formular declarações finais como se fossem movimentos.

Por outro lado, surgiram pelo mundo afora, nos últimos anos, importantes mobilizações da sociedade civil que assumem também a horizontalidade como princípio organizativo e a autonomia em relação a partidos e governos. Mas, apesar dos Fóruns Sociais serem “espaços” que também lhes pertencem, por serem movimentos da sociedade civil, os organizadores dos Fóruns não estão encontrando o modo de integrá-los a esses “espaços”.

Assim, sem questionar a utilidade e mesmo a absoluta necessidade de criar cada vez mais “espaços abertos” de encontro não diretivo da sociedade civil, com os objetivos acima enunciados, talvez seja o caso de retomar a discussão espaço/movimento procurando levar em conta todos esses dados.

Ora, a discussão sobre o futuro do Conselho Internacional do FSM nos oferece uma oportunidade para isso.

A criação e evolução do CI

O CI foi criado após a realização do primeiro FSM, por iniciativa dos seus organizadores brasileiros, para que o processo mundial que tinha sido lançado fosse assumido por movimentos e organizações de todo o mundo e não somente do Brasil.

Constituído inicialmente com representantes de em torno de 50 movimentos e organizações de diferentes países e setores da sociedade civil, esse numero foi aumentando, até chegarmos aos pouco mais ou pouco menos 150 atuais.

Sua função no processo do FSM nunca foi no entanto muito clara. Como uma instância que não “dirige” os Comitês de Organização de cada Fórum mas se situa acima deles, o CI padece de uma ambiguidade que  cria uma permanente tensão quanto a não-diretividade do processo.

Ao longo destes dez anos o CI procurou precisar sua identidade, sua missão e seu modo de funcionar. Mas até hoje não chegou a encaminhamentos satisfatórios, e foi sempre precário seu funcionamento. Depois de três anos reunindo-se em plenárias, com um número de pessoas que dificultava o debate (cada membro acabava dispondo de somente alguns minutos para falar e praticamente uma só vez), estruturou-se em Comissões. No inicio estas funcionaram, umas mais outras menos. Mas hoje, salvo uma ou outra situação, elas são praticamente inoperantes.

O FSM contava no inicio com um secretariado, função preenchida pelo Comitê Organizador brasileiro, que promovera o primeiro FSM. Esse Secretariado apoiava também o funcionamento do CI, preparando suas reuniões, e mantinha o site do FSM. Mais adiante estas funções foram transferidas para um Grupo de Enlace internacional, que contava com um escritório de apoio em São Paulo. Mas na ultima reunião do CI, em Monastir, o Grupo de Enlace praticamente se desfez. E se criou um Grupo de Trabalho especial, com seus remanescentes e membros do CI que se voluntariaram, para preencher a única função que restara ao Grupo, a de preparar a agenda do CI seguinte.

Decisões tomadas pelo CI

Na verdade, nos últimos tempos a única decisão realmente importante que o CI toma, alem da quase burocrática aceitação de novos membros (preparada pela Comissão de Expansão), é a relativa ao local de realização do FSM seguinte. Mas esta decisão acaba sendo um simples aval que o CI dá a uma decisão construída ao longo dos anos anteriores (na qual cumpre um papel também a Comissão de Expansão do CI), e que depende muito mais da existência de organizações e movimentos que se candidatem a promover um FSM em seu país.

Quanto à Metodologia – a dimensão que mais caracteriza a novidade do FSM – a Comissão que trata deste assunto e que absorveu (a meu ver indevidamente) a de Conteúdos, já quase não tem muito a dizer: foi aprovado na reunião do CI de Copenhagen (em setembro de 2008) um Guia bastante completo de organização dos Fóruns, que detalha e complementa os princípios da Carta com indicações práticas. Ele é ainda pouco usado, e por isso mesmo alguns Fóruns Sociais tem ainda “coordenadores” em vez de “facilitadores” – e outros até “Presidentes” e mesmo “declarações finais”, que passam por cima da Carta de Princípios…

Naturalmente há sempre inovações metodológicas introduzidas em cada Fórum Mundial, no respeito à Carta, a partir da experiência do anterior. Mas quem decide de fato sobre essas inovações não é a Comissão de Metodologia do CI mas os próprios organizadores locais, com maior ou menor ajuda de membros dessa Comissão. São esses organizadores que decidem também adotar ou não um tema mais geral para caracterizar cada Fórum, embora o que nele se discuta dependa de fato do que seus participantes inscrevam como atividade.

A Comissão de Comunicação procurou preencher um papel com uma compreensão no entanto não consensual de sua função, e o aprofundamento da questão foi prejudicado pela própria forma pouco precisa com que o CI tomou decisões a respeito dos recursos a serem destinados a cada Comissão.

A Comissão de Recursos, por sua vez, composta inicialmente também de representantes de organizações que dispõem de fundos para financiar o FSM, foi pouco a pouco também se esgotando, cabendo aos organizadores de cada Fórum pleitear os recursos necessários para realizá-lo, com maior ou menor ajuda de membros do CI com condições para isso.

Dado o fato de que, teoricamente, o CI não pode deixar de levar em conta, em suas decisões, as mudanças na conjuntura mundial, sua Comissão de Estratégia se encarregou de preparar a realização de analises políticas sobre essa questão. Estas se complementam, quando as reuniões do CI se realizam por ocasião dos Fóruns, com apresentações sobre a situação do país ou da região em que eles se realizam.

Mas de fato tais análises – e os eventuais debates que provocam – acabam se reduzindo a uma oportunidade de atualização política dos membros do CI, já que este não tem que definir uma estratégia própria mais além da que permita uma continua expansão do processo do FSM, para que chegue a todos os rincões do planeta a mensagem de que “outro mundo é possível” (ou, como dizemos hoje, “necessário e urgente”).

Nesse processo vivido pelo CI conquistou-se no entanto algo importante, quanto ao objetivo de construção de uma nova cultura política: a adoção do principio de tomada de decisão por consenso, que permite construir a união no respeito à diversidade, condição necessária para que  a sociedade civil – por sua própria natureza diversificada e mesmo fragmentada – ganhe a força que pode ter como novo ator político. Uma união que, aliás, a esquerda em geral tem que perseguir, se quiser enfrentar eficazmente o gigante do neoliberalismo.

Mas o CI é de fato, atualmente, uma instância pesada do processo: não se vê com clareza a que servem suas reuniões mas ele não pode deixar de se reunir; e essas reuniões são caras para as organizações dos países que as acolhem e para a vinda de seus próprios membros, quando se realizam em datas independentes das datas dos Fóruns. Tornou-se quase um “elefante branco”. E o pior: moribundo…

De fato, por essas mas também por outras razões, vinculadas à evolução do processo do FSM e das atividades de seus participantes, muitos membros do CI já não comparecem a todas as suas reuniões. Verifica-se uma tendência à sua burocratização, e a que os participantes das suas reuniões deixem de ser os animadores ou dirigentes de movimentos e organizações mas seus funcionários.

Pode-se dizer, em conclusão, que o CI está hoje em plena crise: é significativo o fato de que em sua ultima reunião, em Monastir, que foi especialmente difícil, criou-se consensualmente um Grupo de Trabalho sobre seu futuro; e este Grupo, por sua vez, experimenta grandes dificuldades para realizar sua tarefa.

O que fazer? Uma proposta radical

Atrevo-me a pensar que é o momento de fazermos uma “mudança copernicana” no CI, como a que fizemos em Miami quando o estruturamos em Comissões.

De fato os muitos membros do CI que tem participado mais ativamente de suas reuniões são diversificados e podem divergir em muitas questões, mas constituem o que poderíamos chamar um grupo de afinidade, todos mais ou menos convencidos de que o processo do FSM é útil para a luta pela superação do neoliberalismo. E mais: eles se unem pela amizade, respeitosa das diferenças e mesmo prazerosa, construída na longa série de reuniões do CI – o que também pode acontecer na ação política, quando ela visa um mundo novo…

A esse grupo podem ser agregadas as pessoas que participaram da organização de FSMs já realizados, e até de FSs regionais ou nacionais. O CI até já decidiu realizar (em Santiago de Compostela, transferido depois para Bruxelas) um encontro dessas pessoas, para fazer uma avaliação da metodologia e outros aspectos do processo FSM. Mas também como um sinal das dificuldades atuais do CI, tal encontro não chegou a acontecer.

Então, o que eu gostaria de propor é radical: em nossa próxima reunião por ocasião do FSM de Tunis, em março de 2013, decidir dissolver o CI, por já ter cumprido as funções que poderia cumprir e porque, no processo do FSM, os Fóruns regionais e temáticos já se multiplicam sem dele necessitar; e os Mundiais só necessitam de uma instância que dê o aval para a realização do seguinte no lugar mais adequado politicamente e com melhores condições de ser realizado.

É sem dúvida uma decisão difícil, como o é a retirada de aparelhos de um doente terminal. Mas ela tem sentido se no lugar do CI constituíssemos um “Novo Movimento” (que poderia ser chamado, por exemplo, “Ação pelo Outro Mundo Possível”…).

Renderíamos nossas homenagens a esse CI que desapareceria, agradecendo a todos os seus membros tudo de bom que fizeram para o processo do FSM ao longo destes dez anos, e chamando a todos para integrarem o Novo Movimento. E abriríamos o espaço para as novas gerações, que chegam com muita força e ciosas de não abrigar, em suas iniciativas, nenhum traço de verticalismo, que espreitava o CI, queiramos ou não, por detrás de sua própria função no processo.

Com esta proposta eu retomo portanto a questão espaço/movimento, mas deixo de considerá-la como uma alternativa – ou espaço ou movimento – na qual uma elimina a outra: por um lado os “espaços” FSM desapareceriam se este se transformasse em movimento; por outro, como muitos pensam, não teríamos eficácia transformadora se nos ativéssemos a somente criar “espaços” de intercambio e convergência.

Passo a situar a questão numa relação de complementaridade – espaço e movimento – em que as partes não se misturam nem se dissolvem uma na outra; elas se mantém integras, cada uma com sua dinâmica e função mas se alimentando mutuamente: continuaríamos a criar (e a multiplicar) “espaços”, como instrumentos importantes na luta pela superação do neoliberalismo, ao mesmo tempo que disporíamos de um “movimento” que definiria suas próprias estratégias de luta e suas ações especificas para que essa superação fosse efetiva.

A relação mais direta entre os dois (espaços e movimento) se concretizaria através de uma assembleia geral, aberta, do Novo Movimento, com duas partes: uma antes e outra depois de cada Fórum Social Mundial. Na sua primeira parte (antes dos Fóruns) ganhariam pleno sentido e utilidade as análises de conjuntura, para que seus militantes pudessem levar em conta, nas discussões a se realizarem durante o Fórum, a realidade política, social e econômica do mundo (a apresentação e discussão dessas análises, que seriam portanto uma atividade do Movimento, poderiam até ser acompanhadas pelos participantes do Fórum que o desejassem). E na sua segunda parte (depois dos Fóruns) a Assembleia discutiria as possibilidades de realização do FSM seguinte e daria seu aval – que atualmente é dado pelo CI – para a decisão que fosse tomada.

Mas atenção: tal Assembleia não se confundiria nem se mesclaria com as atividades do FSM em realização, com suas dinâmicas próprias e suas assembleias de convergência. Seria mesmo muito importante que ficasse bem clara essa distinção, para evitar os mal-entendidos que podem ser criados: Fórum é Fórum e Movimento é Movimento.

Os participantes da Assembleia seriam portanto os militantes do Movimento e não todos os participantes do Fórum, mesmo que estes possam vir para acompanhá-la. Isto retiraria da dinâmica do Fórum a tensão pela realização de uma “assembleia das assembleias”, ao seu final, com a pressão para que nela se apresente uma “Declaração Final” do FSM. Porque as ações decorrentes das propostas discutidas durante o Fórum, levadas às suas assembleias de convergência, seriam assumidas pelas organizações que as propusessem, com o “espaço” criado pelo FSM terminando com isso seu papel. E o Novo Movimento poderia até incorporá-las à sua própria estratégia, se fosse o caso, quando a definisse, com ou sem suas próprias “Declarações” – o que ele poderia fazer, se seus militantes o considerassem possível e oportuno, após o termino do FSM ou mesmo em ocasiões posteriores.

Características do Novo Movimento

Chamo este movimento de Novo porque ele teria que ser necessariamente de tipo novo, coerente com a nova cultura política construída nos Fóruns Sociais: estruturando-se em rede, horizontalmente, como os novos movimentos que surgem por toda parte, mas com alcance mundial; tomando decisões por consenso, nas instâncias organizativas criadas para iniciativas especificas; contando com militantes mas sem a designação de dirigentes nem porta-vozes; dialogando com partidos e governos mas mantendo sua autonomia em relação a eles. Estas características permitiriam que a ele se integrassem com mais facilidade os novos movimentos sociais acima referidos.

Os militantes desse Novo Movimento, paralelamente às iniciativas que tomassem visando objetivos específicos, teriam também, como um de seus objetivos permanentes, o de multiplicar a criação de “espaços abertos”, em todos os níveis. Tudo isso explicitado numa eventual Carta de Princípios do Novo Movimento. Assim, como em sua estrutura poderia ser prevista a constituição de Grupos de Trabalho específicos ligados a esse objetivo, acompanhando por exemplo a metodologia dos Fóruns Sociais ou sua expansão, ou mesmo o conteúdo das assembleias de convergência dos Fóruns Sociais. Ou então para preparar as analises de conjuntura a serem apresentadas em suas assembleias bienais.

Ainda que necessariamente horizontalizado, ele poderia se dotar de “escritórios de apoio” interligados, alocados em diferentes países, encarregados de facilitar uma intercomunicação permanente entre seus militantes.

Ele criaria seu próprio site e outros instrumentos de intercomunicação horizontal imediata, que permitissem manter um sistema de consulta permanente de seus militantes, sobre decisões que interessassem ao conjunto.

Ele poderia também buscar recursos especificamente para seu funcionamento, por meio de contribuições de seus militantes espalhados pelo mundo e de campanhas financeiras que a internet torna hoje possível. Estes recursos poderiam ser administrados também de forma descentralizada, a partir dos “escritórios de apoio” interligados e com regras e mecanismos previamente definidos – menos sujeitos à criação de centros de poder – com projetos específicos submetidos a consulta e o site garantindo uma total transparência no uso dos recursos.

Chico Whitaker, 6 de dezembro de 2012

ARTIGO 2: Notas complementares ao texto propondo a dissolução do CI do FSM

O texto sobre o futuro do CI, em que propus a sua dissolução, foi bem recebido por muita gente, apesar de sua radicalidade, ou talvez por isso mesmo. Muitos consideraram que ele abria perspectivas novas e que valeria a pensa aprofundar a discussão. Mas obviamente houve quem ficasse surpreendido ou que contestasse a proposta. E quem levantasse muitas dúvidas e questões sobre a sua validade.

Todos ficaram preocupados com o caráter do tal de “Novo Movimento”, a que atribuí, alem das funções que lhe seriam próprias, a de substituir o CI na decisão especifica – a única que lhe tinha restado, em minha opinião – de avalizar a decisão sobre onde realizar cada FSM.

Por isso mesmo fiquei de completar a proposta, para continuar a discussão que ela provocou. É o que pretendo fazer com este texto. O que proponho é extremamente simples, mas exigiria naturalmente ainda muito debate entre os que considerarem que devemos abrir esse novo processo, dentro do processo do FSM, porem sem se confundir com ele.

Notas complementares ao texto propondo a dissolução do CI do FSM

Chico Whitaker, 03/01/2013

O texto sobre o futuro do CI, em que propus a sua dissolução, foi bem recebido por muita gente, apesar de sua radicalidade, ou talvez por isso mesmo. Muitos consideraram que ele abria perspectivas novas e que valeria a pensa aprofundar a discussão. Mas obviamente houve quem ficasse surpreendido ou que contestasse a proposta. E quem levantasse muitas dúvidas e questões sobre a sua validade.

Todos ficaram preocupados com o caráter do tal de “Novo Movimento”, a que atribuí, alem das funções que lhe seriam próprias, a de substituir o CI na decisão especifica – a única que lhe tinha restado, em minha opinião – de avalizar a decisão sobre onde realizar cada FSM.

Por isso mesmo fiquei de completar a proposta, para continuar a discussão que ela provocou. É o que pretendo fazer com este texto. O que proponho é extremamente simples, mas exigiria naturalmente ainda muito debate entre os que considerarem que devemos abrir esse novo processo, dentro do processo do FSM, porem sem se confundir com ele.

Tratarei primeiro do que chamei de Novo Movimento e em seguida das suas relações com o processo do FSM.

Nota prévia importante: em sua próxima reunião de Tunis, o CI poderia tomar somente uma decisão preliminar quanto à sua dissolução, se ela se tornar consensual. Esta dissolução não precisaria, no entanto, ser efetivada imediatamente. Uma decisão definitiva poderia tomada em uma nova reunião do CI, em local de acesso fácil e o menos dispendioso possível, dentro de seis meses, período durante o qual a opção de dissolução seria melhor discutida. Isto possibilitaria uma ampla participação dos membros do CI e sua melhor informação para uma tão importante decisão. Durante esses seis meses poderíamos também aprofundar a discussão sobre eventuais modificações a introduzir no CI, para o caso de termos que preparar sua continuidade, bem como a estruturação e o funcionamento do Novo Movimento que substituiria o CI, para o caso de termos que preparar essa opção. Neste último caso, seu lançamento seria feito nessa última sessão do CI.

1. Quanto ao Novo Movimento

O desafio que teríamos, para organizar esse Novo Movimento dentro dos princípios da horizontalidade, em rede, sem dirigentes nem porta-vozes, é o mesmo que estão tendo os chamados novos movimentos sociais (indignados, occupy) para dar continuidade ao processo que iniciaram. Poderíamos nos inspirar nas soluções que estão encontrando. Mas como não as conheço, só posso apresentar neste texto algumas ideias que me parecem razoáveis, segundo as informações e dados de experiência de que disponho.

1.1. Teríamos que a dar esse Novo Movimento um nome que caracterizasse sua vinculação com o processo do FSM e seus objetivos. Em minha proposta dei um exemplo: “Ação por um Outro Mundo Possível”. Para simplificar, passarei a usar esse  nome neste texto, abreviando-o para OMP.

Ele teria que ser lançado com um Manifesto ou uma Carta de Princípios, que o definisse e explicitasse seus objetivos e seu modo de se organizar e funcionar. Um projeto de texto, elaborado pelos participantes desta discussão inicial, poderia ser apresentado ao CI em sua próxima reunião, para que seus membros interessados na viabilização do OMP o discutissem. Fico na dúvida se esse texto poderia ser apresentado pelo Grupo de Trabalho sobre o Futuro do CI ou por alguns de seus participantes.

Esse Manifesto ou Carta não substituiria nem questionaria a Carta de Princípios do FSM. Esta continuaria a ser a referência de base para o processo do FSM, cuja vocação é se expandir sempre mais por meio da realização de Fóruns Sociais gerais ou temáticos, a nível mundial, regional, nacional ou local.

1.2. O OMP não seria composto por organizações, como o é o CI, mas por pessoas, vinculadas ou não a organizações, que subscrevessem seu Manifesto ou Carta passando a se considerar seus participantes (abandono aqui a expressão militantes, que consta de meu primeiro texto, mas talvez encontremos outra palavra melhor para definir a pertença ao OMP). Esses participantes não estariam portanto “representando” grupos ou organizações nem precisariam ser “indicados” pelas organizações a que estivessem ligados, como também ocorre hoje com o CI.

No Manifesto ou Carta poderia portanto ser dito de inicio que o OMP não pretende ser um “movimento dos movimentos”, mas um movimento novo que se cria para reforçar a luta pelo “outro mundo possível“, atuando nos diferentes setores e situações em que ações coletivas são necessárias para atingir esse objetivo, e associando-se, sempre que possível e necessário, a outros movimentos em lutas especificas.

1.3. Os participantes do OMP seriam inicialmente os membros atuais do Conselho Internacional do FSM que decidissem, como pessoas, criar esse novo movimento.

Para fazer essa proposta parto da constatação, a que já me referi no texto anterior, de que a maior parte dos membros do atual CI constitui de fato, hoje, um grande grupo de afinidade, ligado por uma amizade que se construiu ao longo de dez anos, respeitando-se mutuamente em sua diversidade, e com o comum desejo de que o processo do FSM tenha continuidade no respeito à sua Carta de Princípios: como criação de espaços de intercambio, articulação e construção de uma nova cultura política, sem “direções” nem porta-vozes; e como um instrumento necessário para o avanço da luta pela superação do neoliberalismo, ao propiciar a união horizontal das organizações e movimentos da sociedade civil que consideram que “outro mundo é possível”.

Essas pessoas têm uma longa experiência de superação de dinâmicas de luta pelo poder entre elas, e têm portanto condições de criar um movimento de tipo novo, menos fragilizado pelas tendências à divisão frequentes na esquerda.

Elas criariam na Web o mais rapidamente possível um blog/site, que passaria a vinculá-los uns aos outros, e permitiria que se intercomunicassem para dar continuidade ao processo.

1.4. Aos participantes iniciais se agregariam progressivamente as pessoas que constituem ou constituíram os Comitês de Organização de Fóruns Sociais Mundiais, regionais, continentais e nacionais e mesmo locais, assim como pessoas que já foram membros do CI e dele se afastaram porque deixaram de ser os “representantes” de suas organizações. No período de seis meses até a próxima reunião do CI se procuraria identificar essas pessoas para convidá-las a participar do OMP, si optarmos definitivamente por sua criação.

A adesão ao OMP, aberta então a todos os interessados, seria feita por simples compromisso de aceitar e respeitar o Manifesto ou Carta, consignada por inscrição através do site

1.5. O OMP se estruturaria horizontalmente, sem chefes ou porta-vozes, apoiado na intercomunicação livre entre todos os seus participantes, através do site ou diretamente, de forma autônoma. Ele funcionaria segundo a lógica das redes, em que ninguém faz coisas por obediência a ordens nem por disciplina acrítica, mas por convicção.

Também dentro dessa lógica, ninguém poderia se exprimir em nome da rede (do OMP, no caso) mas somente enquanto seu participante. E todos e cada um guardariam sua autonomia de atuação política, mas na solidariedade com os demais.

Em todas as instâncias organizativas do OMP seria adotado o principio da tomada de decisões por consenso.

1.6. Para aumentar os vínculos entre esses participantes, nos diferentes países, poderia ser aproveitada a experiência do Grupo de Apoio e Reflexão ao processo do FSM – GRAP, criado no Brasil. Trata-se de um Grupo pequeno de antigos membros do Comitê de Organização do primeiro FSM, que pode se reunir facilmente. Constituído por um critério de afinidade, respeitada a diversidade, a esse Grupo se agregaram depois outras pessoas. Grupos similares poderiam ser criados em outras regiões e países (mais de um por país ou região), garantida a autonomia de cada Grupo em iniciativas que tomassem em seu próprio nome.

Cada GRAP poderia, se assim o decidisse, criar seu respectivo escritório de apoio, como sua extensão operativa. O site do OMP seria então alimentado e atualizado por esses escritórios de apoio, segundo regras de corresponsabilidade.

Caberia a cada GRAP buscar autonomamente recursos, junto a instituições diversas e pela Internet, e administrá-los também autonomamente, para financiar seus escritórios de apoio e suas próprias atividades políticas.

1.7. A adesão ao OMP poderia ser reforçada, pelos participantes que o desejassem, por uma adesão a algum dos GRAPs existentes, no seu próprio país ou em outros países ou regiões. Cada GRAP definiria suas próprias regras de funcionamento e a maneira como ele se relacionaria com os que aderissem a ele.

O conjunto de GRAPs constituiriam assim, dentro da rede de participantes do OMP, uma rede de núcleos mais densos, com maior capacidade de discutir, aprofundar e concretizar ações de diferentes tipos. Eles seriam integrados por um numero variável de pessoas, e estariam interligados horizontalmente entre si, e com os demais participantes do OMP, através do site.

1.8. Os GRAPs manteriam o conjunto de participantes do OMP informados de suas iniciativas, por meio do site, para garantir a intercomunicação entre todos, assim como para ampliar a adesão de outros participantes do OMP em suas atividades.

Vinculados ou não a GRAPs todos os participantes do OMP poderiam apresentar, através do site ou diretamente àqueles a quem estivessem ligados, propostas de ações locais, nacionais ou mundiais, às quais adeririam quem se interessasse, assim como propor objetivos de ação e estratégias gerais para todo o movimento. Foi através da adesão voluntária a uma proposta de algumas organizações, apresentada no primeiro Fórum Social Europeu em 2002 e depois no Fórum Social Mundial de 2003, e difundida em rede a todo o mundo, que chegamos a mobilizar 15 milhões de pessoas em 25 de fevereiro de 2003 contra a guerra e a invasão do Iraque…

1.9. O diálogo do OMP com governos e partidos, a que me referi no texto anterior, e que seria facilitado pela sua criação, seria de iniciativa desses GRAPs, que falariam no entanto em seu nome e não do OMP como um todo. Para conduzir esse diálogo os próprios GRAPs, como Grupos autônomos, designariam aqueles de seus membros que os representassem.

2. Relações do OMP com o processo do FSM

2.1. A mais significativa relação do OMP com o processo do FSM seria, como também já indiquei em meu texto, a de assumir a única decisão que de fato está cabendo atualmente ao CI: dar o aval à decisão sobre onde realizar os Fóruns Sociais Mundiais.

A legitimidade do OMP para assumir essa função resulta do fato de que seus participantes seriam as mesmas pessoas que de fato vêm organizando esses Fóruns, e aquelas que constroem as condições para que cada novo Fórum se realize em diferentes países. Mudaria portanto somente quem daria o aval a essa decisão.

Contando com um site próprio ao OMP, construiríamos essa decisão de forma transparente, com todos os seus participantes sendo informados das candidaturas existentes e os argumentos para esta ou aquela escolha. Poder-se-ia inclusive cogitar de consultas para se conhecer o sentimento dos participantes sobre as opções colocadas.

2.2. Outra clara relação do OMP com o processo do FSM seria propiciada pela existência dos GRAPs acima descritos, se for considerado que podem ou devem ser criados. Seu nome já o indica de forma clara: Grupos de Reflexão e Apoio ao processo do Fórum Social Mundial.

A existência dos GRAPs talvez facilitasse a criação, dentro do OMP, de um Grupo de Trabalho especial, com membros de diferentes GRAPs e outros participantes, voltado diretamente para o esforço de expansão do processo, cumprindo a função atribuída atualmente à Comissão de Expansão do CI. Tal função a ser assumida pelo OMP teria suficiente importância para que constasse explicitamente do seu Manifesto ou Carta de Princípios, como já ressaltei em meu primeiro texto.

2.3. No meu texto anterior propus que o OMP realizasse duas assembleias – que preferiria agora chamar de plenárias, para não confundi-las com as “assembleias de convergência” dos Fóruns ou assembleias de outros tipos e objetivos que se realizem durante os Fóruns. A primeira plenária se realizaria antes e a segunda depois de cada FSM.

Na primeira seria apresentada uma análise de conjuntura da situação social, econômica e política do mundo, para que os participantes do OMP discutissem e aprofundassem o seu conhecimento do que ocorre no mundo, para suas tomadas de decisão sobre o que fazer para mudá-lo e para a definição de estratégias do OMP.

Em meu texto anterior insisti em que essa plenária não se mesclasse com o Fórum Social Mundial, para evitar mal-entendidos. Nessa perspectiva, ela se realizaria antes da tradicional marcha de abertura dos FSM. Mas considerei igualmente que os participantes do FSM que quisessem antecipar de um dia sua presença no local do Fórum poderiam acompanhar a plenária como observadores. Seria até uma forma de interessá-los em participar do OMP.

Ao final dessa plenária seriam apresentadas – sem discussão – as propostas existentes quanto ao FSM seguinte, para que durante o Fórum os participantes do OMP pudessem completar seus intercâmbios sobre essa questão.

Na segunda plenária (realizada depois do FSM e igualmente aberta aos participantes do FSM como observadores) seria então tomada a decisão sobre o Fórum seguinte.

Essa plenária poderia servir também para discutir – e tomar eventuais decisões – sobre propostas de ação para o OMP que tivessem circulado anteriormente através do site, às quais os participantes do OMP poderiam ou não aderir. E poderia ainda servir para decisões relativas aos instrumentos e formas organizativas usadas pelo OMP. Como nas suas demais instâncias organizativas, tais decisões seriam tomadas sempre por consenso.

Para não confundir as coisas, a plenária do OMP depois dos Fóruns também deveria se realizar claramente depois do ato final de encerramento do FSM.

2.4. Retomo aqui o que já propus em meu primeiro texto: as propostas que tivessem sido discutidas durante o Fórum e levadas às suas “assembleias de convergência” seriam assumidas pelas organizações e movimentos que as propusessem, e com isso o “espaço” de intercomunicação criado pelo FSM terminaria seu papel. Não haveria portanto a necessidade de uma “assembleia das assembleias”, como se fosse possível, no FSM, uma convergência única final.

As ações que o OMP assumisse enquanto movimento, em sua plenária após o final do FSM, resultariam necessariamente de decisões que seus participantes tivessem tomado ao longo do ano, na sua intercomunicação permanente e não somente durante o FSM de que estivessem participando. Mas estes mesmos participantes poderiam também, por iniciativa própria, recolher propostas feitas nas “assembleias de convergência” do FSM, pera levá-las à plenária do OMP. Isto em minha opinião faria desaparecer a tensão para que o FSM tome decisões, ao seu final, como se fosse um movimento.

2.5. Outras relações do OMP com o processo do FSM resultariam de outras funções que o OMP poderia assumir, através de Grupos de Trabalho voltados para diferentes tarefas que eram até agora das Comissões do CI, cumpridas ou não.

Alem do caso, já citado, de se criar um GT para cumprir a atual função da Comissão de Expansão do CI, outro exemplo poderia ser o da Comissão de Conteúdos do CI, que nunca funcionou adequadamente porque foi absorvida pela Comissão de Metodologia. Um Grupo de Trabalho poderia identificar propostas de ação surgidas nos diferentes Fóruns mas não implementadas, para transformá-las em ações a serem consideradas pelo conjunto de participantes do OMP.

Tal seria o caso também da Comissão de Estratégia do CI. O OMP poderia constituir um GT que preparasse as análises de conjuntura a serem discutidas nas plenárias do OMP antes dos Fóruns, ou propostas de atuação a serem discutidos na segunda plenária, juntamente com outras propostas que fossem feitas pelo Grupo de Trabalho sobre Conteúdos e pelos participantes em geral do OMP.

***

Haveria ainda muitas outras possibilidades a desenvolver, dentro do esquema apresentado acima. Elas caberão melhor, no entanto, na continuidade de nossa discussão. Paro portanto por aqui. O objetivo deste texto era somente o de detalhar um pouco mais minha proposta inicial.

Eu pretendia também examinar as questões levantadas por muitos de vocês, nos mails que recebi. Mas para isso teria que me alongar muito mais. Quem sabe mais adiante consigo fazê-lo. E algumas dessas questões talvez já tenham sido consideradas neste texto.

Meu abraço, Chico Whitaker

ARTIGO 3: Mais notas sobre a minha proposta para o Conselho Internacional do FSM

2013-01-02

Explico neste texto um pouco mais a minha proposta, considerando os comentários de Francine e Gina, especialmente no que diz respeito aos GRAPs. Muitas coisas que eu digo abaixo são conhecidas por todos, mas são necessárias para estruturar o meu raciocínio.

Mais notas sobre a minha proposta para o Conselho Internacional do FSM

Chico Whitaker, 15/01/201

Explico neste texto um pouco mais a minha proposta, considerando os comentários de Francine e Gina, especialmente no que diz respeito aos GRAPs. Muitas coisas que eu digo abaixo são conhecidas por todos, mas são necessárias para estruturar o meu raciocínio.

  1. Quando eu disse que temos que superar a possibilidade do “ou” (espaço ou movimento) no processo do FSM e começar a usar a possibilidade do “e” (espaço e movimento), não foi para dizer que o FSM teria que se tornar um espaço e um movimento: deveríamos ter o FSM como espaço e criar um novo movimento (o OMP – um Outro Mundo Possível) como movimento, em paralelo, sem misturá-los. Deveríamos, no entanto, vinculá-los, transferindo para o OMP algumas funções atuais do Conselho Internacional do FSM, como já indiquei (uma vez que o CI do FSM e suas comissões desapareceriam). Mas, além dessas funções, o OMP, sendo um movimento, agiria autonomamente, como movimento, a fim de realizar nossos objetivos de superação do neoliberalismo.

  2. Propus que o OMP não fosse formado por organizações ou movimentos, como acontece agora com o CI, mas por indivíduos – membros ou não de organizações ou movimentos – ligados uns aos outros em rede, com uma contínua intercomunicação horizontal através do site do OMP ou diretamente. Formar o OMP com indivíduos é uma opção baseada no fato de que organizações e movimentos tendem a burocratizar os seus compromissos. Como organização ou movimento, eles decidem (democraticamente ou não…) se concordam com uma proposta de ação. Seus membros farão então o que tem que fazer, se são disciplinados e obedecem a ordens de cima ou decisões coletivas. Enquanto que, como indivíduos, envolvem-se na ação por convicção, quando concordam com a proposta.

  3. Organizações e movimentos são evidentemente importantes, às vezes indispensáveis, nas lutas sociais. A pergunta seria: como fazer organizações e movimentos se envolverem em lutas propostas ou promovidas pelo OMP? Um dos papéis dos participantes do OMP seria então obter o envolvimento das organizações ou movimentos a que possivelmente estejam ligados.

  4. Todo e qualquer participante do OMP poderia fazer propostas para ações do OMP ou compartilhar suas reflexões com os outros, por meio do site ou diretamente. Boas reflexões e propostas seriam bem recebidas e aceitas e poderiam ser implementadas, bem como propostas e reflexões menos boas seriam esquecidas.

  5. Quando pensamos e propomos alguma coisa sozinhos, podemos correr o risco de não vermos tudo e cometer erros, e apresentar propostas ou reflexões ruins que ninguém vai aceitar. Todos sabemos disso. É sempre melhor discutir com pelo menos mais alguém. Evidentemente é ainda melhor se discutimos a proposta com mais pessoas. Cometeremos menos erros e talvez possamos desenvolver com todo o grupo (inteligência coletiva) muito boas ideias. Este foi o processo que levou à criação do nosso GRAP no Brasil. E esse mesmo processo poderia ser vivido por muitos participantes individuais do OMP, criando, naturalmente, diferentes tipos de grupos, com diferentes objetivos e tipos de ação (ver ponto 10).

  6. O mesmo pode ser dito em relação às ações. Naturalmente sempre posso agir como indivíduo. Por exemplo, no meu comportamento diário como consumidor. Mas se eu tiver boas ideias sobre como tornar as pessoas mais conscientes de nossa cumplicidade com o sistema se aceitarmos o comportamento consumista, e se eu as discutir com outros e planejar ações coletivas, os resultados serão melhores. Não tenho certeza se nosso amigo que escalou até o topo a Bolsa de Valores de Bruxelas há algum tempo atrás decidiu sozinho sobre essa sua ação. Foi uma ideia muito boa, para denunciar o que acontece em nossas “Wall Streets". Talvez ele não tivesse feito o que fez se o tivesse discutido antes, com outros. Mas talvez também muitos outros poderiam ter feito o mesmo em muitos países, no mesmo dia, por exemplo, se sua ideia fosse discutida com outros e proposta em rede. Como acontece hoje com o movimento Occupy Wall Street e com todas as outras iniciativas de "Ocuppy" que existem hoje nos Estados Unidos, inspiradas na primeira.

  7. Uma rede, como sabemos, é como um tecido. Cada membro da rede é um nó, ligado a todos os outros por fios de intercomunicação. Um tecido é mais forte se houver muitos fios ligando os nós. E é ainda mais forte se, em uma rede de pessoas, se os nós não forem indivíduos, mas grupos. Ou, dizendo de forma diferente, a rede é mais forte se liga grupos e não indivíduos. Este é o sentido da palavra "densa", que usei apresentando os GRAPs no meu segundo texto.

  8. Em uma rede, diferentes tipos de grupos podem ser criados por iniciativa de indivíduos que não desejam ficar sozinhos, e sim intercambiar horizontalmente com outros participantes. A rede do OMP será cada vez mais forte com a multiplicação de tais grupos, na heterogeneidade que é uma das características da sociedade civil.

  9. O OMP seria um tecido mais forte (mais denso) com nós grandes e fortes, cada um cumprindo o seu papel na reflexão coletiva e ação. E sua ação também poderia ser mais forte se resultante da ação de grupos e não apenas de indivíduos. A horizontalidade asseguraria a não existência de nós mais importantes do que outros, ou nós pretendendo direcionar a reflexão e a ação dos outrosOs participantes do OMP poderiam então se reunir em muitos tipos de grupos (ver ponto 5). Os GRAPs seriam um tipo de grupo. Eles seriam grupos autônomos de indivíduos, com características e objetivos específicos (ver ponto 16).

  10. Os participantes do OMP poderiam então se reunir em muitos tipos de grupos (ver ponto 5). Os GRAPs seriam um tipo de grupo. Eles seriam grupos autônomos de indivíduos, com características e objetivos específicos (ver ponto 16).

  11. Assim como nenhum grupo teria mais importância do que os outros, os GRAPs não teriam um poder especial dentro da rede. Nem poderiam constituir, no seu conjunto, uma estrutura oculta por trás da rede, com a pretensão de dirigi-la. Assim, no que diz respeito à apresentação de propostas (ver ponto 4), por exemplo, ninguém precisaria, para fazê-lo, ser um membro do GRAP (nem de qualquer outro grupo), assim como as propostas e reflexões não precisariam também aguardar as decisões dos GRAPs para serem consideradas ou não.

  12. Para tornar ainda mais clara a posição dos GRAPs dentro do OMP, é bom dizer que as plenárias do OMP por ocasião dos Fóruns Sociais Mundiais não seriam plenárias de membros dos GRAPs, mas de todos os participantes do OMP. O consenso a ser alcançado nestas plenárias sobre, por exemplo, o país a ser escolhido para o FSM seguinte, consideraria a opinião de todos, membros ou não de GRAPs.

  13. Ampliando a questão: cada participante do OMP, como todos os grupos existentes dentro dele, incluindo os GRAPs, poderiam fazer propostas relativas a ações a serem desenvolvidas pelo OMP. Mas poderiam ser criados grupos voltados especificamente para a ação do OMP, reunindo participantes que desejassem pensar e trocar ideias sobre as diferentes possibilidades de ação do OMP, seus métodos, objetivos e oportunidades de lançamento. Para que o OMP decidisse sobre qualquer uma dessas propostas, esses grupos teriam que apresentá-las para todos através do site. Eles também não teriam, portanto, um poder especial dentro da rede.

  14. O mesmo poderia ser dito sobre os grupos de trabalho que fossem criados para assumir a responsabilidade de algumas das funções atuais do CI do FSM (expansão, metodologia, comunicação, estratégias, conteúdo), como indiquei em meu texto anterior. Os membros dos GRAPs seriam especialmente bem-vindos nestes grupos de trabalho devido ao tipo de interesse dos participantes que neles se reúnem (ver ponto 16), mas seriam abertos para todos os outros participantes do OMP que desejassem trabalhar com este objetivo. E esses grupos não seriam mais importantes do que outros.

  15. Em meus textos anteriores eu disse que os GRAPs poderiam também dialogar com governos e partidos, não em nome do OMP mas em seu próprio nome. O raciocínio que desenvolvi neste texto me leva a dizer que qualquer grupo do OMP poderia fazê-lo, mas sempre, evidentemente, em seu próprio nome, como um grupo de participantes do OMP, sem no entanto comprometer o OMP como um todo. Os resultados de tais diálogos poderiam tornar-se, em seguida, propostas a apresentar a todo OMP, que tomaria as decisões por consenso.

  16. No entanto, concluindo meu raciocínio, os GRAPs poderiam desempenhar um papel orgânico dentro do OMP, entre os vários grupos que poderiam nele existir: 1) eles reuniriam participantes especialmente preocupados com a continuidade e a expansão do processo FSM, como uma criação contínua de cada vez mais "espaços abertos" em todos os níveis e em todo o mundo, segundo a Carta de Princípios do FSM (que define os objetivos do processo FSM). Como seu nome indica, o objetivo dos GRAPs seria o de assegurar “uma reflexão e um apoio" ao processo do FSM; 2) eles dariam ênfase ao respeito à diversidade, que é uma das características do FSM, uma vez que seriam grupos formados a partir de critérios de afinidade mas com participantes provenientes de diferentes tipos de engajamentos e setores da sociedade civil. Neste aspecto, eles seriam diferentes dos outros grupos na rede do OMP, que poderiam existir igualmente a partir de critérios de afinidade mas com pessoas tendo a mesma visão política ou trabalhando no mesmo setor da realidade; 3) o Manifesto ou Carta de princípios do OMP poderia "autorizar" os GRAPS a criarem escritórios de apoio, de forma autônoma, e obter fundos para o funcionamento do seus próprios escritórios, que estariam a serviço, no entanto, de todo o OMP. Isso tornaria possível descentralizar, de forma organizada, a alimentação do site do OMP, através desses escritórios. Na verdade os GRAPs seriam encarregados do funcionamento do site, como ferramenta de intercomunicação de todos os participantes do OMP.

  17. A existência de GRAPs também poderia facilitar uma descentralização das iniciativas para obtenção de fundos até mesmo para ações do OMP como um todo, uma vez que já o fariam para financiar seus escritórios de apoio. Neste caso, os GRAPs se comprometeriam a manter todos os participantes do OMP informados de forma transparente dos recursos obtidos e sua utilização.

  18. A existência de GRAPs ajudaria também os participantes isolados do OMP, que quisessem contribuir para a expansão e aprofundamento do FSM, a estarem mais organicamente presentes no OMP: eles poderiam ligar-se a qualquer GRAP (segundo sua própria escolha, em seus próprios países ou em outros países).

  19. A criação de GRAPs, mesmo sendo muito útil, não precisaria ser forçada. Poderíamos criar o OMP apenas com "participantes", unidos ou não em diferentes tipos de grupos. Ele poderia funcionar assim um certo tempo, mesmo sem grupos ou outros GRAPs além daquele que já existe. Esses outros GRAPs seriam criados onde e quando eles se tornassem possíveis e necessários, como aconteceria com outros tipos de grupos. Uma vez criados, eles se ligariam uns aos outros segundo as necessidades e possibilidades.

  20. Uma última palavra sobre a tomada de decisão do consenso. Considero que esta é uma das experiências mais ricas do processo FSM. Em primeiro lugar porque evita a utilização dos métodos antidemocráticos tradicionais para ganhar votações em assembleias: trazer seguidores de nossas posições para encher a sala. Em segundo lugar porque aprendemos a ouvir, uma vez que somos obrigados a ouvir o que diz o nosso adversário e tentar entender a sua verdade, para ver se ela pode ser combinada com a nossa verdade, uma vez que não se vai votar e temos que construir uma decisão aceitável para todos. Isto requer tempo, mas a decisão consensual pode ser obtida mais rapidamente se aqueles que facilitam a discussão tentam identificar o mais depressa possível a decisão que parece se tornar consensual. Em seguida, eles perguntam quem considera absolutamente inaceitável tal decisão. Se alguns pensam assim (e mesmo que uma única pessoa pense assim) a discussão deve continuar, até se chegar a uma proposta de decisão que possa ser aceita por todos, mesmo que todos não estejam completamente satisfeitos. Este processo coloca como condição principal, para tomar decisões, a possibilidade de manter a unidade, evitando o afastamento  das minorias derrotadas na votação, como acontece na fragmentação habitual da esquerda. A tomada de decisão consensual não é a obtenção da unanimidade, mas a criação de condições para continuar juntos.

CW. 16/01/2013
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